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Cuiabá - MT - Ex Presidente e vereador comandavam esquema de 7,5 milhões
30 de junho de 2009
Os 11 mandados de prisão
são resultados da operação Crepúsculo, deflagrada por volta das 6h pela
Delegacia Fazendária, setor especializado da Polícia Civil que apura crimes
contra o patrimônio público. Os dois empresários presos ficarão na Polinter, anexo
1 da Penitenciária Central de Cuiabá, e não tiveram nomes divulgados.
De acordo com os delegados
fazendários, o esquema foi feito a partir de quatro irregularidades:
falsificação de documentos de empresas para que elas participassem de
licitações na Câmara; ajuste prévio para escolha da empresa vencedora, que
devolvia em média 90% do valor recebido; combinação entre servidores ligados a
Lutero e empresários para dar aparente legalidade aos processos; e prestação de
serviços antes mesmos de formalizadas as licitações fraudulentas.
O esquema era tão
estruturado que a Câmara contava com cinco pessoas abaixo do ex-presidente
responsáveis por dar aparente legalidade aos crimes. Tudo só era possível
porque o ex-secretário-geral, Hiram Monteiro da Silva Filho, atestava que os
produtos e serviços adquiridos pela Câmara davam entrada no estoque do
Legislativo.
A operação crepúsculo foi
divulgada pela Delegacia Fazendária durante entrevista coletiva que a delegada
titular Lusia de Fátima Machado concedeu ao lado dos delegados Maria Alice
Amorim, Wylton Massao Ohara, Rogério Modelli e Lindomar Aparecido Tófolli logo
após a frustada tentativa de prisão dos envolvidos. Apesar de prenderem apenas
dois empresários, vários documentos foram apreendidos nas casas dos acusados,
inclusive de Lutero Ponce. O material ainda está sendo analisado. Os mandados
de prisão foram expedidos no domingo pelo juiz da 15ª Vara Criminal de Cuiabá,
José Arimatéia Neves Costa. Também foram deferidos 13 mandados de busca e
apreensão.
Repetição - Os delegados fazendários admitiram
ontem que a operação Crepúsculo comprova em grande parte as denúncias feitas
por uma auditoria contratada pelo atual presidente da Câmara de Cuiabá,
Deucimar Silva (PP), que acusou Lutero de promover um rombo de R$ 3 milhões no
erário através de compras inusitadas, como 6 milhões de copos descartáveis.
A diferença de valor
ocorreu porque a auditoria contratada por Deucimar analisou apenas as contas de
2008 de Lutero. As de 2007 foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado
(TCE), apesar de terem sido detectadas mais de 20 irregularidades no balanço.
A operação Crepúsculo, que
recebeu esse nome em alusão ao termo latim crepusculum, que significa a
chegada de um novo tempo, comprovou outra coisa: as fraudes em licitações no
Legislativo foram mais comuns do que se esperava, pois um esquema similar
também resultou no indiciamento da presidente da Câmara nos anos de 2005 e
2006, atual deputada Chica Nunes (PSDB).
Chica foi indiciada e
denunciada formalmente pela Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) juntamente com
outras nove pessoas por formação de quadrilha, fraude em licitação e peculato,
que é apropriação do dinheiro público. Lutero também foi denunciado à época,
conforme revelado por A Gazeta.
A denúncia contra Chica e as
outras nove pessoas resultou na ação penal 84.507/2008 que tramita no Tribunal
de Justiça (TJ/MT). O grupo também foi alvo de uma ação civil pública proposta
pelo Ministério Público Estadual (MPE) em que é pedida a devolução de R$ 6,6
milhões que teriam sido desviados.
Apesar da semelhança, ou
seja, a fraude em licitação, a nova operação da Delegacia Fazendária mostra que
o desenrolar da irregularidade era diferente. Enquanto em 2005 e 2006 o grupo
de Chica teria se apropriado de recursos públicos logo após montar empresas
fantasmas que venciam licitações fraudadas, na gestão de Lutero a apropriação
se daria a partir do momento em que o valor de licitações era superfaturado e
atestava-se que produtos teriam entrado no estoque do Legislativo.
Apesar da semelhança, os
delegados fazendários evitaram fazer ontem qualquer avaliação pessoal sobre a
repetição de fraude em licitações. "O nosso papel é investigar. Fizemos
isso anteriormente e agora estamos analisando as contas de 2007 e 2008. Não nos
cabe dar opinião ou fazer qualquer comparativo", afirmou a delegada Maria
Alice Amorim.
Indiciamento - Lutero e as outras 10 pessoas serão
indiciadas por seis crimes: formação de quadrilha ou bando (com pena prevista
de 1 a 3 anos de reclusão), falsidade ideológica (1 a 5 anos), falsidade de
documento particular (1 a 5 anos), falsidade de documento público (2 a 6 anos),
peculato (2 a 12 anos) e fraude à licitação (2 a 4 anos).
Todos serão indiciados nos
próximos dias, quando a Delegacia Fazendária encaminhará o relatório das
investigações ao juiz da 15ª Vara Criminal de Cuiabá, José Arimatéia. Depois
disso, a promotora de Justiça Ana Cristina Bardusco deverá denunciar
formalmente todos pelos mesmos crimes. Como a promotora já referendou os
pedidos de prisão, deverá também denunciar todos. Devido às brechas previstas
em leis, a Justiça deve levar mais de ano para julgar o caso.
Decoro - Com a decisão da Delegacia
Fazendária em indiciar Lutero e mais 10 pessoas, a Mesa Diretora da Câmara de
Cuiabá deverá colocar nos próximos dias em votação no plenário os pedidos de
cassação do ex-presidente por falta de decoro. Isso porque o atual presidente,
Deucimar Silva, prometeu encaminhar os pedidos somente depois que de concluído
o inquérito.
Depois de arquivar de uma
só vez cinco pedidos de entidades sociais favoráveis à cassação do
ex-presidente por conta das denúncias feitas pela auditoria contratada por
Deucimar, a Câmara já recebeu 21 novos pedidos individuais de cassação do
mandato do vereador do PMDB. A ação é parte da campanha encabeçada pela ONG
Moral (Movimento Organizado pela Moralidade Pública e Cidadania).
De acordo com Deucimar
Silva, a decisão de levar os novos pedidos para votação se deu a pedido dos
aliados de Lutero. Ao anunciar a decisão, Deucimar alegou que tem que respeitar
a decisão do plenário que arquivou os primeiros cinco pedidos. Ao ser
questionado ontem sobre o assunto, ele alegou que só vai se pronunciar de novo
após analisar cuidadosamente o relatório da Delegacia Fazendária sobre a
operação Crepúsculo.